Nesta sala de paredes brancas
tubos redondos e rectangulares colados às paredes
apitos agudos das máquinas verdes e azuis
sangue circulando em linhas transparentes,
doentes escondidos no sofrimento
lençóis pendurados para servirem de cortinados
quadro branco escrito gestão de doentes
caixotes amarelos com lixo sanguíneo
duas janelas onde o céu vive
torres altas ao longe
encostados a telhados brancos
e copas de árvores.
Cinco camas
enfermeiros a circular
uma televisão ligada
um doente de cadeira de rodas a entrar
uma auxiliar a deitar o doente
segue o enfermeiro
máscara
luvas
segura nas agulhas
espeta-as na carne
liga a agulha à linha
o sangue circula das linhas ao filtro
do filtro às linhas
conecta-se à outra agulha
aos poucos o rim artificial
limpa o sangue
como um castigo indeterminado
uma sensação alérgica
queima-me o peitoral
tosse exaltada
tenta abrir-me os agrafos
aperto o peito
aos poucos a respiração
normaliza
aceito esta cruz
jogo o jogo
sem sonhos para ganhar
só apenas jogar.
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