As razões do amor não tem fundamento
as lágrimas não rimam com a realidade
o real é uma coisa a verdade é outra
onde está a esperança está a loucura
do querer e não querer
do morrer e viver
do ir e vir
do regressar e partir.
Eu tenho um sono
não conhecer o sofrimento
não saber o que é a dor
não conhecer os opostos das benevolências
não sentir tristeza
emanar laivos reluzentes
de laços de paz
banhar-me em lagos paradisíacos
amar sem questionar
como os ponteiros do relógio
firmes no círculo
do início para o fim
do fim para o início
e ficar no manto terreno
nas estalagmites frescas
do sol.
Nesta sala de paredes brancas
tubos redondos e rectangulares colados às paredes
apitos agudos das máquinas verdes e azuis
sangue circulando em linhas transparentes,
doentes escondidos no sofrimento
lençóis pendurados para servirem de cortinados
quadro branco escrito gestão de doentes
caixotes amarelos com lixo sanguíneo
duas janelas onde o céu vive
torres altas ao longe
encostados a telhados brancos
e copas de árvores.
Cinco camas
enfermeiros a circular
uma televisão ligada
um doente de cadeira de rodas a entrar
uma auxiliar a deitar o doente
segue o enfermeiro
máscara
luvas
segura nas agulhas
espeta-as na carne
liga a agulha à linha
o sangue circula das linhas ao filtro
do filtro às linhas
conecta-se à outra agulha
aos poucos o rim artificial
limpa o sangue
como um castigo indeterminado
uma sensação alérgica
queima-me o peitoral
tosse exaltada
tenta abrir-me os agrafos
aperto o peito
aos poucos a respiração
normaliza
aceito esta cruz
jogo o jogo
sem sonhos para ganhar
só apenas jogar.
As janelas estão fechadas,
não se podem abrir,
o sol já incidi fortemente
mais um dia nesta terra maravilhosa,
prisioneira das minhas fraquezas,
das entraves de maleitas,
escondidas nas células.
Quero fugir
ultrapassar todos os obstáculos,
recolher-me num espaço de paz
sem palavras falsas, injustas,
sem relíquias pesadas do passado.
Renascer como as hortenisas
florir todos os jardins
fechar as pétalas com as estrelas
abrir de manhã no nascer do sol
apenas só apenas
sorrir.
Não me digam nada,
não me perguntem nada,
porque não sei
As grades aprisionaram-me
o inferno penetrou no meu corpo
O frio e o calor devoram-me
o emagrecimento reduz-me a nada.
Sinto uma dor de alma
com ofegar permanente da respiração,
nestes quartos de hospital,
olho para cada face
o sofrimento é visível
mas a esperança reaparece dia-a-dia.
Alta hospitalar felicidade nos rostos
dia a dia,
dia após dia
já se foram quase todos e
novos vieram.
Os pulmões lentos
tentam respirar,
neste instante só tenho um sonho
poder respirar normalmente,
os olhos queimam-se de sonho,
mas não me posso deitar,
só sentar ou ficar em pé.
Puxo duas almofadas,
olho pela janela
as luzes brilhantes,
vou suavemente com os ponteiros do relágio,
sigo para outra dimensão,
sem recordações do passado,
sem palavras adornadas de ingratidão,
sigo com Deus.
Arroz branco sem sabor de nada
omelete de crustáceos
ainda por encontrar
couves mal cozidos
abacaxi preto.
O almoço está posto
agora é engolir
coma o farnel senhor
quer ficar arrebitado
não torça o nariz
cheira a marisco.
Maldito chouriço
que engolia
o sal que exagerava
agora foi operado
por ser guloso,
coma o que há
não seja esquisito
se emagrecer não há problema
coma o que há
não me enerve homem
pronto já vomitou
pelo menos não suja a fralda.
Ao fundo há um monte fugaz
em rodeio violado por telhados vermelhos
paredes brancas
antenas de centopeia
caixotes anárquicos
de cimento oco
com janelas escondidas
camufladas por stories
semi-corridos.
Bate o sol do meio-dia
ouve-se a cocidade frenética
civilizacional,
a fome aperta os estômagos,
as sebes anseiam por uns chuviscos,
mas o tempo não está para mudanças
é Verão.
Quem não deseja
circundar a beira-mar,
espreitar as rochas seculares,
molhar os pés,
baloiçar-se nas ondas,
sem pensar em mais nada
apenas em ser feliz
Fecho os olhos as sombras agrestes dos arbustos
invadem-me das suas penugens
envolvem-me num manto amarelo vio
aveludado.
Estou preso tento soltar-me
mas as amarras são mais firmes do que a minha força.
Deixo-me levar não há outro meio de resolução
para onde irei?
Abro os olhos estou
onde sempre tive
no materialismo circundante, esbanjante, interesseiro
nas acções imprópris, indignas do ser humano.
Não, não é isto,
não quero voltar ao passado onde já permaneci
padeci e perdi
Abandono tudo,
agarro ao meu corpo
a verdade, a pureza
e fujo para sempre
sem saber para onde ir,
mas não interessa aqui
neste matigal de arbustos hipócritas retiro-me
deixo-os na sua paz e eu vou encontrar a minha.
Nas minhas mãos circula o snague,
velozmente pulsa, pulsa o coração,
bata devagar, resistindo, resistindo,
chama de luz que quer ser reacendida.
Como é dorida a cruz do sofrimento.
Dor massacral bemvinda â vida,
sem tristezas no olhar, sem pensamento.
Abandono-me em ti meu Deus.
Abro os olhos o horizonte é mais pálido
Tantas outras vidas pregadas â cruz,
consciente deste novo r.
Senhor dá-me força para crescer na tya féenascer
As asas do paraíso foram-se no enxoval
das peças acumuladas de luxo.
Tudo foi...
As moedas foram lançadas ao desbarato
entre guerras, iras de ódio
e vergonhas.
Todos os bens misturam-se nas águas,
após torrenciais quedas de água.
E a croa não valeu de nada,
o criado fugiu com o ouro,
o ouro foi roubado
e mais tarde apareceu no lodo,
pepita a escassa pepita,
e tudo se voltou a unir.
A terra o que é da terra,
Ao mar o que é do mar,
ao homem e que é do homem
e assim se fez a vida,
dia a dia sem hesitar,
tudo voltou à origem
e a origem brotou o renascer.
Os canteiros de rosas no realce de um olhar
apaixona os dias prisioneiros, instáveis
e rotineiros nos desencantos da vida.
O sofrer efectivamente,
não é sabor que se queira provar,
mas quem já de si o provou
e no final descobriu o paraíso?
As moedas perderam-se efectivamente na penumbra dos encantos.
Os olhos endiabrados felizes, construtores do mundo
ficaram nas poeirentas cadeiras de abono da avó,
tantos novelos de várias cores se enrolaram
e construiram um ramal aconchegante
peças de vestuário de vestir.
Agora o branco esfumou-se numa cor inexacta
nem amarelo, nem bege,
cor encardido quando se esfrega o passado
cor assombrada da penumbra dos fantasmas.
Os dias acotovelam-se rotineiros,
mas que pena os teus olhos não se tornaram rotina,
ficaram franzidos,
apanharam os defeitos das obras humanas,
os pós castanhos dos prazeres mundanos.
Deixa-me voltar olhar os teus olhos de antigamente,
não os feche na obscuridade das vicissitudes,
quanto e bela a verdade, a moralidade,
quando prazer está no encanto de um simples olhar puro.
O sol cresce na penumbra azul reflectida
desde o antigamente.
O presente avança de empurrão das lacunas do passado,
como as noites fossem vermelhas
estreladas com candeeiros reflectidos
nas brumas das sereias escondidas.
As noites não podem ser sempre tristes
e fendidas com os lobos
escondidos nas silvas dos muros
antigos colados entre si
por camadas finas de terra.
O elo entre a chuva doirada
as amoras preguiçosas
teimosas em aparecer
nas silvas epnduradas
como brincos de princesas
aliciando o princípio
nos mistérios
do amor.
Com sete punhais o teu punho me espetou,
meigamente sorriu, fingindo que nada aconteceu.
Os teus dedos não vacilaram,
a tua língua labaredas derramou,
sou eu do outro lado da linha amor,
está a quase, falta um instante,
seremos livre para nos amar.
Pé ante pé, pela areia
com o mar a bater na rocha,
a traição do teu corpo espelhava
a injúria da tua maldade.
Reles troca, reles escolha,
lá no alto os Anjos
não estão cegos
não se deixam enganar
pelas malfeitas espertas
que não receias em manobrar.
Continuas alicerçando
os pêndulos da tua felicidade,
Deus é grande,
quem quer construir felicidade
sobre a infelicidade alheia,
caia de susto,
na miséria,
no fogo do Inferno será o destino justo.
Continua na manipulação,
na hipocrisia,
o dia volta a nascer
mas a tua orquestração,
finda com a humilhação
da tua traição.
Continua na usurpação fingida
a tua vil, feia, gorda perdição,
derramará os teus ossos na sopa de massa
e degustará até à exaustão,
não sobejará resto de nada,
serás deglutido até às banhas das entranhas.
Receberás a traição sete vezes mais,
nenhuma oração te salvará.
Quando morreres os teus dedos
não poderão telefonar,
o teu amor infindável,
estará no imerso de outro mar,
a quem traiste foi-se,
mas estas palavras
nunca mais te abandonarão,
pagarás o preço com juros
de todas as traições que manipulaste.
Qual a sensação da traição?